Crônicas das Idas e Vindas N°3: Alastor e a Morte.
Quando a Morte veio até ele, sentou-se na cama e rugas surgiram nos lençóis. Diziam que Ela tinha uma aparência diferente para cada pessoa, e para ele, se parecia com uma mulher de rosto jovem, porém rígido e impassível. Vestia um terno impecável e carregava um grande livro de capa preta entre os braços.
Ele sabia quem Ela era, e limitou-se a dizer:
- Eu esperava por você há algumas noites. Poderia ter vindo mais cedo.
- Eu nunca me atraso. Sempre chego quando tenho que chegar.
O homem a ignorou. Embora seu coração tivesse parado de bater na mesma noite em que completara oitenta anos, nesse momento ele tinha voltado ao seus trinta, o cabelo branco era castanho mais uma vez, e todas as dores da velhice tinham o deixado. Ele também vestia um terno, escuro e uniforme, do mais alto executivo. Ele a examinou como se fosse uma de suas funcionárias de quase uma vida atrás, e franziu o cenho, só agora notando o grande livro que parecia muito com uma ata das quais seu escritório vivia lotado.
- E isso, o que é?
- É a sua vida.- respondeu ela sucintamente. - Tudo o que você fez está aqui, nesse livro.
O homem sorriu de modo arrogante. A ideia de um livro com todas as suas conquistas o agradava. Considerou como um troféu final. No entanto, a Morte não sorria. Havia algo por trás daqueles olhos… algo triste, assim pareceu. Ela estendeu o livro para ele, que não pensou duas vezes em segurá-lo com firmeza.
Ele abriu a primeira folha. Estava em branco; uma ruga de dúvida surgiu em sua testa e ele levantou os olhos questionadores para a Morte.
- Vá em frente. - ela disse, mas não soava encorajador.
Continuou folhando as páginas, uma após a outra, e todas estavam em branco. A arrogância tinha se dissolvido como névoa e agora os olhos daquele homem que costumava ostentar orgulho tinham se tornado vazios por um momento.
- Não há nada aqui. - disse por fim.
- Porque uma história não pode ser escrita com capítulos repetidos. - explicou a Morte. Não havia gentileza ou bondade em sua voz. - Sua vida inteira foi baseada sempre na mesma coisa.
Ele pareceu chocado.
- Mas eu conquistei coisas - protestou - fui o dono de uma empresa bilionária. Viajei pelo mundo. Tive as mulheres mais bonitas e todos me respeitavam.
Pela primeira vez naquela conversa a Morte divertiu-se. A mulher executiva que Ela aparentava ser ergueu apenas uma sobrancelha.
- E no entanto você morreu sozinho nessa cama. - disse Ela. O homem abriu a boca para falar e a fechou em seguida. - Amanhã as ações da sua empresa serão vendidas pelos seus sócios. O que você lembra dos lugares em que esteve? As mulheres que você teve, pelo menos a maioria delas conheceu um outro homem e até uma outra mulher, se casaram, tiveram filhos, netos e não farão a mínima ideia de quem você era quando lerem a notinha do seu obituário no jornal pela manhã. Você viveu, Alastor, mas não viveu. Não teve tempo. Lembra? Essa era a sua resposta pra uma grande quantidade de coisas que não envolviam seu trabalho. - “Eu não tenho tempo para isso”, ele sussurrou. E a Morte assentiu. - Não é errado ter dinheiro, adquirir coisas. No entanto, no final, seu último suspiro foi solitário, em um quarto escuro, com uma casa grande e vazia, decorada com moveis caros e um punhado de poeira. Você foi sua única companhia, e uma história - ela fez uma pausa - nenhuma história pode ser escrita com apenas um personagem.
Nesse momento Alastor ficou de pé ao lado da Morte, inclinou a cabeça e olhou para a cama onde jazia seu corpo físico, muitos anos mais velho, com rosto enrugado e cabelos de prata, a expressão parada e os olhos cansados, e sem vida fitando um espaço em branco no teto.
- Você vai me dar uma segunda chance? - perguntou de modo esperançoso, quase suplicante.
Houve um longo minuto silencioso. A Morte ajeitou o óculos sobre o nariz e disse finalmente:
- Não. Isso não é um conto de fadas. O dinheiro pode mesmo comprar a felicidade, do contrário que os seres humanos pensam. Mas não pode comprar o Tempo, e nem uma segunda vida.
Alastor suspirou, derrotado.
- Tudo bem. - disse, admitindo para si: era o fim. Ele olhou para o livro de sua vida com desgosto, e folhou até a última página, onde havia apenas uma frase.
“O homem que não tinha tempo.”
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